A Nova Doutrina do Hemisfério Ocidental
Trump quer anexar as Américas ou consolidar um império informal?
Chester NEWS | Análise Estratégica
Santos, 28 de janeiro de 2026
A divulgação do novo documento de estratégia dos Estados Unidos para o chamado Hemisfério Ocidental marca uma inflexão clara na política externa e de defesa norte‑americana. Mais do que um ajuste tático, o texto revela uma mudança de paradigma: os EUA deixam de priorizar a gestão de uma ordem global e passam a concentrar esforços na consolidação de uma hegemonia regional absoluta nas Américas.
A pergunta que surge — e que já circula em círculos diplomáticos e estratégicos — é direta: Donald Trump quer ampliar os Estados Unidos para todas as Américas?
A resposta curta é não, ao menos não no sentido jurídico ou territorial clássico. A resposta estratégica, porém, é bem mais inquietante.
1. Não é anexação — é hegemonia estrutural
O novo documento não fala em anexação territorial, mas deixa claro que Washington pretende garantir que nenhuma potência extra‑hemisférica exerça influência decisiva no continente americano. Trata‑se de uma releitura dura da Doutrina Monroe, agora atualizada para o século XXI.
Na prática, os EUA passam a tratar o Hemisfério Ocidental como:
- zona vital de segurança nacional;
- base industrial, energética e alimentar estratégica;
- retaguarda militar segura em um mundo instável;
- espaço geopolítico exclusivo.
É a substituição do multilateralismo global por uma lógica de esfera de influência explícita.
2. Doutrina Monroe 2.0: o Corolário Trump
Se no século XIX a Doutrina Monroe dizia “a América para os americanos”, o novo corolário implícito afirma:
“As Américas para os interesses estratégicos dos Estados Unidos.”
A diferença fundamental está nos instrumentos:
- sanções financeiras direcionadas;
- controle tecnológico (chips, IA, telecomunicações);
- pressão sobre cadeias logísticas, portos e energia;
- dissuasão militar seletiva;
- uso político de imigração, comércio e investimentos.
A soberania formal dos países permanece intacta. A autonomia real, não.
3. Por que agora?
Quatro fatores explicam a guinada:
a) Fim da ilusão da ordem liberal global
Trump parte do pressuposto de que a globalização entrou em colapso estratégico. Em seu lugar, surgem blocos civilizacionais rivais.
b) China como ameaça existencial
A presença chinesa em portos, infraestrutura, energia, mineração e tecnologia na América Latina passa a ser vista como inaceitável. O documento sinaliza claramente: a China deve ser contida e, quando possível, expulsa do hemisfério.
c) Cansaço estratégico dos EUA
Washington não quer mais bancar simultaneamente Europa, Oriente Médio, Ásia e África. O foco passa a ser aquilo que pode ser controlado com vantagem geográfica: o próprio continente.
d) Geografia como ativo decisivo
Controlar as Américas significa garantir profundidade estratégica, segurança alimentar, domínio energético e superioridade logística — mesmo em um cenário de retração global.
4. O novo arranjo hemisférico em formação
O cenário mais provável não é um “Estados Unidos das Américas”, mas um sistema assimétrico:
- EUA: hegemon hemisférico incontestável;
- Canadá e México: integração quase estrutural;
- Brasil, Argentina e Colômbia: potências regionais com autonomia condicionada;
- Caribe e América Central: protetorados informais;
- Venezuela, Cuba e Nicarágua: dissidência sob pressão constante.
É um modelo de soberania limitada, porém funcional, aos olhos de Washington.
5. E o Brasil?
Para o Brasil, o novo cenário é ambíguo:
- oportunidade de se tornar parceiro estratégico preferencial;
- risco de perda de margem diplomática com China e outros polos;
- pressão por alinhamento em temas sensíveis (defesa, tecnologia, energia);
- redução do espaço para uma política externa verdadeiramente autônoma.
A escolha brasileira não será entre submissão e confronto, mas entre relevância negociada ou irrelevância estratégica.
Conclusão
Donald Trump não pretende anexar formalmente as Américas. O objetivo é mais sofisticado — e mais profundo:
garantir que nenhuma potência rival possa existir politicamente nas Américas sem a anuência dos Estados Unidos.
Trata‑se da construção de um império informal, baseado não em bandeiras hasteadas, mas em dependências estruturais.
O Hemisfério Ocidental deixa de ser apenas uma região geográfica. Passa a ser o último grande reduto estratégico dos EUA em um mundo fragmentado.
E, gostemos ou não, todos os países das Américas terão de se posicionar.
Chester NEWS — Estratégia, poder e leitura fria do mundo real.













