terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A Nova Hegemonia de Trump nas Américas. O Retorno da Doutrina Monroe 2.0


A Nova Doutrina do Hemisfério Ocidental

Trump quer anexar as Américas ou consolidar um império informal?

Chester NEWS | Análise Estratégica

Santos, 28 de janeiro de 2026

A divulgação do novo documento de estratégia dos Estados Unidos para o chamado Hemisfério Ocidental marca uma inflexão clara na política externa e de defesa norte‑americana. Mais do que um ajuste tático, o texto revela uma mudança de paradigma: os EUA deixam de priorizar a gestão de uma ordem global e passam a concentrar esforços na consolidação de uma hegemonia regional absoluta nas Américas.

A pergunta que surge — e que já circula em círculos diplomáticos e estratégicos — é direta: Donald Trump quer ampliar os Estados Unidos para todas as Américas?

A resposta curta é não, ao menos não no sentido jurídico ou territorial clássico. A resposta estratégica, porém, é bem mais inquietante.


1. Não é anexação — é hegemonia estrutural

O novo documento não fala em anexação territorial, mas deixa claro que Washington pretende garantir que nenhuma potência extra‑hemisférica exerça influência decisiva no continente americano. Trata‑se de uma releitura dura da Doutrina Monroe, agora atualizada para o século XXI.

Na prática, os EUA passam a tratar o Hemisfério Ocidental como:

  • zona vital de segurança nacional;
  • base industrial, energética e alimentar estratégica;
  • retaguarda militar segura em um mundo instável;
  • espaço geopolítico exclusivo.

É a substituição do multilateralismo global por uma lógica de esfera de influência explícita.


2. Doutrina Monroe 2.0: o Corolário Trump

Se no século XIX a Doutrina Monroe dizia “a América para os americanos”, o novo corolário implícito afirma:

“As Américas para os interesses estratégicos dos Estados Unidos.”

A diferença fundamental está nos instrumentos:

  • sanções financeiras direcionadas;
  • controle tecnológico (chips, IA, telecomunicações);
  • pressão sobre cadeias logísticas, portos e energia;
  • dissuasão militar seletiva;
  • uso político de imigração, comércio e investimentos.

A soberania formal dos países permanece intacta. A autonomia real, não.


3. Por que agora?

Quatro fatores explicam a guinada:

a) Fim da ilusão da ordem liberal global

Trump parte do pressuposto de que a globalização entrou em colapso estratégico. Em seu lugar, surgem blocos civilizacionais rivais.

b) China como ameaça existencial

A presença chinesa em portos, infraestrutura, energia, mineração e tecnologia na América Latina passa a ser vista como inaceitável. O documento sinaliza claramente: a China deve ser contida e, quando possível, expulsa do hemisfério.

c) Cansaço estratégico dos EUA

Washington não quer mais bancar simultaneamente Europa, Oriente Médio, Ásia e África. O foco passa a ser aquilo que pode ser controlado com vantagem geográfica: o próprio continente.

d) Geografia como ativo decisivo

Controlar as Américas significa garantir profundidade estratégica, segurança alimentar, domínio energético e superioridade logística — mesmo em um cenário de retração global.


4. O novo arranjo hemisférico em formação

O cenário mais provável não é um “Estados Unidos das Américas”, mas um sistema assimétrico:

  • EUA: hegemon hemisférico incontestável;
  • Canadá e México: integração quase estrutural;
  • Brasil, Argentina e Colômbia: potências regionais com autonomia condicionada;
  • Caribe e América Central: protetorados informais;
  • Venezuela, Cuba e Nicarágua: dissidência sob pressão constante.

É um modelo de soberania limitada, porém funcional, aos olhos de Washington.


5. E o Brasil?

Para o Brasil, o novo cenário é ambíguo:

  • oportunidade de se tornar parceiro estratégico preferencial;
  • risco de perda de margem diplomática com China e outros polos;
  • pressão por alinhamento em temas sensíveis (defesa, tecnologia, energia);
  • redução do espaço para uma política externa verdadeiramente autônoma.

A escolha brasileira não será entre submissão e confronto, mas entre relevância negociada ou irrelevância estratégica.


Conclusão

Donald Trump não pretende anexar formalmente as Américas. O objetivo é mais sofisticado — e mais profundo:

garantir que nenhuma potência rival possa existir politicamente nas Américas sem a anuência dos Estados Unidos.

Trata‑se da construção de um império informal, baseado não em bandeiras hasteadas, mas em dependências estruturais.

O Hemisfério Ocidental deixa de ser apenas uma região geográfica. Passa a ser o último grande reduto estratégico dos EUA em um mundo fragmentado.

E, gostemos ou não, todos os países das Américas terão de se posicionar.


Chester NEWS — Estratégia, poder e leitura fria do mundo real.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Américas para os Americanos. UE e Ucrânia para os Russos e Taiwan e Ásia/Oceania para os Chineses?



Chester NEWS — 19.01.2026

Editor-chefe do blog estratégico de maior influência da América Latina

(Atualizado em 20.01.2026 às 18:25).


Doutrina Trump: America First!

Américas para os Americanos(1)!

União Europeia e Ucrânia para os Russos(2)?

Taiwan, Ásia e Oceania para os Chineses(3)?


A captura do ex-presidente e ditador da Venezuela marca, simbolicamente, o início de uma Nova Ordem Internacional (N.O.I.). Os chamados falcões dos Estados Unidos parecem ter chegado à conclusão de que a Antiga Ordem Internacional, que eles próprios ajudaram a construir por meio da ONU, OMC, OTAN e diversas outras estruturas multilaterais, foi, ao longo do tempo, instrumentalizada por seus adversários estratégicos.

Ex-comunistas, regimes autoritários, grupos antiocidentais, antissemitas e movimentos islamistas radicais passaram a ocupar e influenciar esses organismos, utilizando o direito internacional como arma política contra os interesses dos Estados Unidos e de Israel.

China, Rússia e Irã — regimes autoritários — passaram a operar o sistema internacional não para garantir estabilidade, mas para expandir e preservar suas ambições hegemônicas. A China consolidou-se como principal potência rival dos EUA; a Rússia manteve-se como adversária histórico-estratégica; e o Irã, sob um regime teocrático radical, financia há décadas organizações terroristas como Hamas, Hezbollah e Houthis.

Muitos poderão argumentar que a captura de Nicolás Maduro viola o direito internacional. No entanto, é preciso lembrar que, até então, diversos ditadores cometiam crimes sistemáticos contra suas populações sem qualquer tipo de punição efetiva. A ação dos EUA envia uma mensagem clara: não existe mais imunidade absoluta para regimes autoritários.

Agora, os ditadores sabem que não estão mais livres para agir sem consequências. Ainda que os Estados Unidos caminhem para se tornar, de fato, um Império, isso não significa que o mundo mergulhará em uma anarquia total. Assim como existe no Brasil a ideia de um “caos organizado”, um mundo pós-instituições multilaterais pode parecer anárquico à primeira vista, mas possui lógicas próprias de poder e equilíbrio.

Antes da Primeira Guerra Mundial, o sistema internacional era estruturado em impérios e áreas de influência bem delimitadas. O Império Romano, por exemplo, coexistia com outros grandes impérios, inclusive a China, mantendo relações comerciais, porém vivendo relativamente isolado em suas respectivas esferas.

O mundo pode estar caminhando para uma nova versão da Era dos Impérios, agora sob a forma de Neo-Impérios. Para manter sua hegemonia cada vez mais contestada pela China, pelo Sul Global e pelos BRICS+, os Estados Unidos parecem passar por uma metamorfose estratégica.

Nesta nova configuração, os EUA podem buscar a aglutinação total das Américas — Groenlândia, Canadá, México e América Latina — seja por meios diplomáticos, econômicos ou, se necessário, militares. Donald Trump já deixou claro que essa possibilidade não está descartada.

A União Europeia, por sua vez, não interessa nem aos americanos nem aos russos como um polo autônomo e forte. Assim como ninguém interveio para salvar Maduro, pode estar implícito que os EUA dominariam definitivamente o continente americano, enquanto Putin ficaria livre para tratar a Ucrânia e a própria Europa como parte de sua esfera de influência estratégica. A China, por sua vez, avançaria sobre Taiwan e consolidaria sua influência sobre toda a Ásia.

O Oriente Médio tenderia a permanecer sob influência da Liga Árabe; a África continuaria fragmentada em interesses regionais das grandes potências; e a Índia seguiria como um caso singular — uma civilização milenar relativamente isolada entre gigantes imperiais.

Se essa Nova Ordem Internacional — baseada em Áreas de Influência dos Neo-Impérios — se confirmar, ninguém virá salvar a Europa ou a Ucrânia da Rússia, nem Taiwan da China, tampouco os países das Américas da hegemonia norte-americana.

Cada Neo-Império, como em um supermercado geopolítico, escolherá aquilo que lhe interessa:
EUA — Américas
Rússia — Ucrânia e Europa
China — Taiwan, Ásia e Oceania

Nesse cenário, paradoxalmente, pode haver menos guerras diretas entre os grandes impérios, já que cada um alcançaria seus objetivos estratégicos sem confrontos globais. A má notícia recai especialmente sobre a América Central e do Sul, que passariam a integrar a órbita dos EUA de uma forma ou de outra.

A prisão de Maduro em Nova Iorque, tratado como um criminoso comum, tem um simbolismo poderoso. Assim como Trump chamou o primeiro-ministro do Canadá de “governador”, fica cada vez mais evidente que os Estados Unidos enxergam todas as Américas como seu quintal estratégico, quase como um assunto de política interna.

Nesse contexto, Putin sente-se encorajado a tratar a Ucrânia e a União Europeia como questões internas da esfera russa, enquanto a China reafirma que Taiwan é um assunto doméstico de sua zona de influência.

Assim, três Presidentes-Imperadores — Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin — parecem redesenhar a Nova Ordem Internacional sobre as ruínas da antiga. Uma ordem que tentou, por mais de 70 anos, sustentar-se em normas, direito internacional e organizações multilaterais, mas que acabou se transformando em uma Torre de Babel inoperante, injusta e fracassada.